A educação grega, o ENEM e as curvas da história.

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Diz a lenda que um amigo de Sócrates o procurou, certa vez, para lhe dar  notícia de um amigo comum. Antes, porém de realizar o intento que provavelmente deixaria o filósofo grego boquiaberto, Sócrates o interrompeu para assegurar-se de que a novidade passara por três peneiras. Ao espantado interlocutor o mestre perguntou: “O que me contarás é verdade? Ante a incerteza do “repórter”, Sócrates lançou a segunda pergunta: “O que pretendes contar-me de bom?”. Nova hesitação. Então, lançou a última questão: “O que tens intenção de me contar é de utilidade tanto para mim como para o nosso amigo e para ti mesmo?”. Dada a tríplice negativa, Sócrates concluiu: “Uma vez que a coisa que pretendias me contar não é certamente verdadeira, nem boa, nem útil, não tenho intenção de conhecê-la e aconselho-te a não procurar veiculá-la.”

Factual ou não, essa história serve para indicar os princípios da educação grega proposta por Sócrates: a verdade, a bondade e a utilidade.

Diante da visão utilitarista da educação sofista, Sócrates contrapunha uma educação focada no conhecimento da realidade e na busca do bem comum. Ressalte-se, entretanto, que a perspectiva socrática esconde uma luta de classes. O embate se dá entre os donos de grandes fortunas, que não precisam trabalhar, e os comerciantes, que não veem seus interesses atendidos pelos políticos, os mesmos donos das grandes fortunas. Para preencher essa lacuna de representação, contratam os sofistas, mestres de oratória e gramática, para aprender com eles a usar a palavra e tornar-se cidadãos, o que lhes permitiria representar o povo contra os interesses dos aristocratas.

Sócrates enxergava nessa prática sofista, que se preocupava apenas em ensinar a debater, a argumentar, em detrimento da busca da verdade (conhecimento) e do bem comum (bondade) uma concepção educacional bastante discutível e um atentado à filosofia, direito de todos. Mas Aristóteles, duas gerações após, vai fundamentar a divisão de classes, alegando que o trabalho físico, manual, é incompatível com a atividade de pensar, que está ligada à produção de conhecimentos e à participação política. Ele nega, assim, a utopia de Platão, discípulo de Sócrates, seu mestre, de dar a cada um, espaço na pólis conforme as competências e habilidades individuais. Essa disputa de poder vai bater, mais tarde, na Revolução Francesa.

Aterrissando na educação formal e democratizante dos tempos pós-ditadura militar, encontramos a preparação para a formação superior – o ensino médio – entregue a um calhamaço de conteúdos que impede o sujeito de pensar, de criar, conforme acusava Aristóteles. A preparação para o vestibular torna-se, então, trabalho para os sofistas, que se preocupam apenas em aprovar os alunos no vestibular, abrindo mão de sua formação social para o bem e para a verdade, atualizado a disputa entre filósofos e sofistas para a concorrência entre educadores e instruções.

Anuncia-se agora o ENEM como porta de entrada para a universidade, que busca realizar os anseios – socráticos – de uma educação plena, geral e irrestrita. Tendo em vista a valorização do pensamento científico (a verdade), a busca de solução para os problemas sociais (a bondade) para resolver as novas demandas do mercado (utilidade), o Exame Nacional para o Ensino Médio aponta novos rumos para a Educação.

É a vez da formação artística, a educação física e a formação para s convivência, tão caras aos gregos antigos, reclamarem seu espaço. Em tempos de wikipedia, de “rebolation”, de consumismo exacerbado, de culto a imagem e à personalização… vai uma revolução aí?

Bosco Luna

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